sexta-feira, 8 de abril de 2011

5 minutos com Fernando Duarte - Choro cantado

O músico Fernando Duarte comenta sobre possíveis problemas de adaptação do choro cantado dentro da relação entre música e poesia. Apesar da polêmica, algumas versões dos choros instrumentais são verdadeiros sucessos e tornam-se símbolos representativos da música brasileira quando recebem letra no seu corpo, com destaque para a canção Carinhoso, de Pixinguinha (foto).




Leia o comentário completo de Fernando Duarte no texto abaixo:

O choro é um gênero instrumental urbano que surge no fim do século XIX como uma forma brasileira de se interpretar músicas de dança européias. Desde os primeiros anos do gênero o poeta Catulo da Paixão Cearense, colocou letra em músicas de compositores como Ernesto Nazareth e Anacleto de Medeiros e sobre um tema de João Pernambuco fez os versos de Luar do Sertão. Na década de 40 e 50 ficaram famosas as gravações de Ademilde Fonseca de Tico-tico no fubá, Brasileirinho e outros choros clássicos. E hoje grandes intérpretes, como Marisa Monte, Zélia Duncan e Olivia Hime reservam um lugar especial para o choro em seus repertórios.

Mas o choro cantado traz algumas questões problemáticas da relação entre música e poesia. Existem maravilhosos choros feitos para serem cantados, como o clássico Nova ilusão, de Claudionor Cruz e Pedro Caetano, mas são poucos. Enquanto o jazz aproveita muitas canções (de filmes, de musicais, etc.) e as transforma em música instrumental, o choro cantado normalmente faz o caminho inverso, colocando letra em músicas compostas para serem instrumentais. E aí começam os problemas de adaptação. Pelas características do gênero, os choros usualmente são rápidos e com muitas notas curtas em cada compasso, o que o obriga o canto a ter uma dicção perfeita e usar a voz com tanta técnica quanto um instrumentista. Além disso, as composições costumam ter três partes, com muitas repetições, o que faz ser necessário uma letra muito longa.

Talvez por isso, o choro cantado mais conhecido seja o Carinhoso, do mestre Pixinguinha. Uma das músicas que sempre está encabeçando as listas de canções mais importantes do Brasil, foi gravada pelo compositor em 1929 e só veio a fazer sucesso com a versão cantada por Orlando Silva, com letra de Braguinha em 1937.O Carinhoso tem uma história curiosa. O próprio Pixinguinha deixou a composição guardada por anos, por não considerar que era um “choro típico”, por ter apenas duas partes. Quando gravado pelo compositor em 1929 sofreu críticas pela sua forma e pelo arranjo considerado “jazzificado”. Outras gravações instrumentais não fizeram muito sucesso até a gravação com os versos do experiente Braguinha, que exploram com precisão a relação entre a duração das notas e o movimento da melodia e a tensão emotiva da letra.

Muitos músicos e compositores são contra a prática de colocar letra numa música já existente. Os parceiros, muitas vezes indesejados, nem sempre fazem versos à altura das músicas dos mestres do choro e ficam para sempre ligados à composição por questões de direitos autorais. Um disco recente de um músico norte-americano trazia uma versão instrumental do Assanhado, com autoria creditada a Jacob do Bandolim e Baby Consuelo, autora da letra. E a história é antiga. Catulo da Paixão Cearense considerava que as músicas sobre as quais fazia seus versos eram um mero detalhe e chegou a ameaçar processar Villa-Lobos por plágio, por ter citado em uma obra a melodia de Iara, de Anacleto de Medeiros, que Catulo versou em seu Rasga Coração.

. Fernando Duarte é musicólogo pesquisador, instrumentista, compositor e arranjador com passagem por vários grupos de choro, mpb, rock, jazz e pop.

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e-mail: fernandond@gmail.com

my space: www.myspace.com/fernandonduarte

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