segunda-feira, 8 de junho de 2015

Diário de bordo da Rádio Escola no Ar - parte VI

Saudações ouvintes da Rádio Escola no Ar, digamos, leitorxs. Hoje falaremos sobre duas experiências distintas com nossas crianças e  adolescentes: a apresentação do programa Especial Manuel Bandeira e a elaboração do roteiro. O projeto começa a ganhar corpo, já conhecemos melhor xs alunxs e a experiência de transformar uma rádio escola num espaço de Educação Literária toma contornos reais.

As crianças

Como estão trabalhando o gênero poema nas aulas de Português, decidimos elaborar um especial sobre Manuel Bandeira. É recomendável conciliar os temas/pautas da rádio com o currículo escolar, pois dessa forma a aprendizagem ganha sentido porque é posta em prática.

Optamos por entregar o roteiro pronto com o intuito de focar, inicialmente, no que chamamos leitura em performance, destacando aspectos como: fluência na leitura (ritmo), pronúncia das palavras e, claro, a compreensão dos textos valendo-se também das características sonoras próprias de cada poema selecionado. Tudo isso de maneira lúdica e envolvendo o máximo de pequenxs na "brincadeira". 

Nesta atividade, nossos objetivos foram:

1º) Apresentar a biografia de Manuel Bandeira por meio duas obras: a autobriografia Itinerário de Pasárgada e o filme O habitante de Pasárgada.




2º - escutar o próprio Manuel Bandeira recitando seus poemas. Ficam aqui duas sugestões de escuta:





3º - dividir as falas do roteiro entre apresentadorxs e poetas, tendo estxs últimxs a função de recitar os poemas durante o programa;

4º - já identificar aquelxs que gostariam de atuar na parte técnica, como o manuseio do programa de playlist ZaraRádio.

A oficina

Tendo em vista que já estudaram os gêneros biografia e autobiografia, esse programa também serviu para selar a aprendizagem, incorporando-os a uma prática lúdica e de apropriação da linguagem.

Na aula passada, distribuímos e lemos vários poemas. Axs alunxs que escolheram recitar os do Bandeira, pedimos que trouxessem a folhas hoje, porém nem todxs se lembraram. Daí, esclarecemos nossos objetivos dali por diante: estudar a biografia do Manuel Bandeira, dividir as falas do roteiro entre elxs, treinar a leitura e apresentar nosso primeiro programa ao vivo. Houve gritinhos de empolgação!

Notamos um vazio na sala, logo esclarecido pela professora Gracinda que separara a turma entre os engajado e os que "só queriam bagunçar". Aquela velha história, né? Um galerinha ficou em sala fazendo dever.

Sentamos no chão e foleamos o livro Itinerário de Pasárgada, conversamos sobre a biografia de Manuel Bandeira, lemos alguns trechos do livro e vimos fotos dele na juventude. Depois, assistimos ao filme O habitante de Pasárgada e escutamos alguns áudios raros do nosso poeta recitando seus textos.
Ao final, descobrimos que um aluno muito querido seria transferido, o Alexsander. Há algumas semanas, ele havia nos pedido para assistir ao DVD da banda O Rappa e, exatamente hoje, lembramos de cumprir a promessa. Com um aperto no coração, passamos alguns trechos do DVD e cantamos juntos algumas canções, como “Pescador de Ilusões” e “A minha alma”; além de um trecho dos extras em que são mostrados os diversos instrumentos que a banda utiliza nos shows.

Foi bonito ver a professora Gracinda explicando com ênfase os versos "Pois paz sem voz não é paz, é medo".

Como necessitamos fazer algumas alterações no roteiro, entregamos por e-mail e com as seguinte sugestões de poema: Porquinho-da-Índia, Peneumotórax e A Onda. Quem quiser conferir o roteiro, basta clicar aqui.


Os adolescente

Segue abaixo o relatório da monitora Duana Peixoto, descrevendo a oficina com xs adolescentes.

A aula começou com a avaliação do programa piloto, nossa primeira tentativa que ocorreu na oficina passada. Para além dos problemas com os equipamentos, conversamos sobre como organizaram o roteiro e a apresentação naquele dia. Cada um foi pontuando algum dado crítico, com destaque para aspectos referentes à leitura: ritmo acelerado, entonação, volume e falta de atenção na sequência das falas. Além disso, enfatizamos a necessidade de silêncio no estúdio, bem como a grafia clara do roteiro, já que tiveram problemas para compreender a letra do aluno roteirista.
Com o levantamento do que deve ser melhorado para ir ao ar mais uma vez, voltamos ao exercício de roteiro. Os alunos nos surpreenderam levando cópias de um texto elaborado durante a semana, já com falas separadas e músicas que escolheram para tocar - sinal que estão animados e comprometidos com a rádio.
1º versão do roteiro que trouxeram de casa espontaneamente
continuação do roteiro

A partir daí, a aula se desdobrou na leitura e acertos desse roteiro (que também já tinha uma versão digital!). Projetamos o texto na parede da sala e iniciamos, coletivamente, a corrigi-lo e a propor outras construções. Para além dos problemas ortográficos, chamamos a atenção para a coesão entre as frases e a progressão do assunto.

Outro movimento interessante foi o de fazer sugestões na playlist, somando outras referências ao repertório musical deles.


Após projetarmos na parede a 1º versão do roteiro, começamos a modificá-lo coletivamente.



No fim, entregamos alguns CDs com músicas do Tim Maia para um especial que ainda faremos. A ideia de um programa sobre o Tim vem ao encontro da nossa preocupação com a ampliação do repertório musical a partir das referências deles. Como há um clamor pelo Funk, utilizaremos o Tim Maia para fazer um link com o Soul.



EXTRAS
Dica de formação de repertório musical: uma boa ideia para a formação de repertório musical com adolescentes pode ser a construção colaborativa do roteiro. Estabeleça uma quantidade de músicas para eles escolherem e busque sugerir outras referência na sequência. Note abaixo que as músicas sugeridas por nós estabelece algum diálogo, temático ou sonoro, com o universo delxs:

Seleção dos alunos: Rude  - Magic 


Nossa sugestão: Jason Mraz - I'm Yours

Seleção dos alunos: Anita - ritmo perfeito
Nossa sugestão: Mc leozinho - ela só pensa em beijar

Seleção dos alunos: Anita e Projota - Mulher


Nossa sugestão: Marcelo D2 - Qual é?

Seleção dos alunos: Charlie Brown Jr. - Dias de Luta, dias de glória

Nossa sugestão: Gabriel o pensador - Até quando?

domingo, 31 de maio de 2015

Sarau Musical com André Prando e Marcos de Castro



Não fales muito
Também não cales nada
Aproveite apenas 

O paladar da madrugada
                      (Marcos de Castro, Poemas reunidos,p.138)



25 de março, última quarta do mês: o Vice Verso traz convidados para uma noite recheada de música, poesia e uma boa conversa sobre as produções capixabas e nacionais. Nossos convidados do segundo sarau musical: Marcos de Castro e André Prando. Pela segunda vez em nosso programa, o poeta e o cantor se encontraram para uma ode a estética marginal. 





Marcos de Castro é ator e poeta. Mineiro de resplendor, mas capixaba por amor - renasceu aqui no ES com sete anos, em 1976. Sobrevive - ou subvive -exclusivamente de teatro, cinema e literatura. Vez em quando faz uns bicos como professor - é licenciado plenamente para lecionar Língua e Literatura Portuguesa. Tem pelo menos 14 obras publicadas com os quais resiste e insiste na árdua e necessária missão de mudar o mundo. Pelas palavras de Jorge Mautner, Marcos de Castro é um vulcão (...) militante, ativista da imaginação literária e humanista flamejante radical.

 Juliano Rabujah, André Prando, Marcos de Castro, Aline Maria, Fernando Zorzal e Iuri Galindo



André Prando é músico e compositor. Firmou espaço na cena musical com a banda Mendigos Cientistas, logo depois gravou o Ep. Vão e lançou, no dia 01º de abril o disco Estranho Sutil, com direito a vídeo clipe e muita pala no Vice Verso. Indicamos a escuta!
 


No quadro Quem conta um ponto aumenta um conto Iuri Galindo fez uma divertida exposição de algumas crônicas da obra Pequeno discurso sobre a feiura, de Antônio Rocha Neto,
membro da Academia de Letras de Velha Velha. No fim do programa, o Vice Verso participou da 1ª Parada Gay no Rádio com canções que evocam a estética e a militância LGBT, contra o preconceito e em apoio a vida. Uma tentativa de calar a homolesbotransfobia com música!





Canções e poemas



Vestido cor maçã (Interpretação: André Prando, Composição: Augusto Debbané)

Só um toque (Autoria e performance: Marcos de Castro, obra: Poemas Reunidos)

O mundo com tudo o que há (Interpretação e composição: André Prando)

Poecria (Autoria e performance: Marcos de Castro, obra: Poemas Reunidos)
O homem (Interpretação: Raul Seixas; Composição: Raul Seixas e Paulo Coelho) - sugerida por André Prando, esta canção marcou sua escolha pela música.
Só um toque (Autoria e performance: Marcos de Castro) 
Aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor (Interpretação e composição: Raul Seixas) - sugerida por Marcos de Castro por ter marcado sua infância.




Última esperança (Interpretação: André Prando, composição: Sergio Sampaio)
Procurando buscas (Autoria e performance: Marcos de Castro, obra: Poemas Reunidos)

Inverso ano-luz (Interpretação e composição: André Prando)

Anjo Você (Autoria e performance: Marcos de Castro, obra: Poemas Reunidos)

Alto lá (Autoria e performance: André Prando)

Sozinho (Autoria e performance: Marcos de Castro)

Amiga vagabunda (Interpretação e composição:  André Prando)



1ª Parada Gay na Rádio

Cidadão-cidadã (Interpretação e composição: Jorge Mautner)

Eclipse oculto (Interpretação e composição: Caetano Veloso)

O livre atirador e a pegadora (Interpretação e composição: Gilberto Gil)
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Locução: Aline Maria e Fernando Zorzal, Produção de áudio: Juliano Rabujah, Design gráfico: Elvira Broetto, Imagens: Iuri Galindo, Revisora de linguagem: Luana Mattos, Mediadora escolar: Duana Peixoto, Produção: Jamille Ghil e Karina Caetano, Coordenação: Prof. Jorge Luiz do Nascimento.

Escrevivência - especial Carolina Maria de Jesus


(. ..) Percebi que chegaram novas pessoas para a favela.  Estão maltrapilhas e as faces desnutridas. Improvisaram um barracão.  Condoí-me de ver tantas agruras reservadas aos proletarios. Fitei a nova  companheira de infortunio. .Ela olhava a favela, suas lamas e suas  crianças pauperrimas. Foi o olhar mais triste que eu já presenciei.  Talvez ela não mais tem ilusão. Entregou sua vida aos cuidados da vida.
...Há de existir alguem que lendo o que eu escrevo dirá. ..isto é mentira! Mas, as miserias são reais.
...O que eu revolto é contra a ganancia dos homens que espremem uns aos outros como se espremêsse uma laranja.

                                                                         (29 de Maio, Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo)



No dia 18 de abril de 2015, a palavra poética foi Escrevivência para evocar a luta e a obra de Carolina Maria de Jesus. Escrevicência é termo cunhado pela escritora Conceição Evaristo pra descrever a relação mais que íntima entre a escrita e a experiência de vida. 

Nascida em Sacramento, no interior de Minas Gerais, em 1914, vinda de família muito pobre, Carolina tinha sete irmãos e conheceu o mundo do trabalho bem cedo pra ajudar no sustento da casa. Estudou até o segundo ano primário. Na década de 30 mudou-se (a pé, segundo seus próprios relatos) para São Paulo, foi buscar Onde estaes felicidade, mas acabou por viver uma vida de miséria na favela do Canindé – importante cenário de seus escritos.

No Vice Verso Escrevivência falamos de uma mulher negra, pobre, catadora de papel que se tornou uma escritora mundialmente conhecida. Mãe solteira, com pouca escolaridade.  Carolina Marina de Jesus escrevia sobre o cotidiano da favela e sobre as questões sociais do seu entorno em cadernos que encontrava no lixo.

Em 1960 foi lançado seu primeiro livro, Quarto de despejo: o diário de uma favelada. O título veio de uma frase marcante de Carolina: “A favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos” (Relato de 19 de maio). O livro foi um sucesso, a tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma semana. 





Em meio a canções de resistência e representatividade da favela compartilhamos relatos, trecho de suas obras, poemas recitados por nós e por outros. No quadro 5 Minutos, David Borges falou sobre a necessidade de desenvolver pensamento crítico para tratar de questões políticas sem se colocar como massa de manobra e reproduzir discurso de ódio e violência. 



Já no Quem conta um ponto aumenta um conto, tivemos a estreia de Elvira Broetto, nossa designer, falando sobre literatura infanto juvenil, na obra Encantamento - Contos de fada, de fantasma e de magia de Kevin Crossley-Holland.





Ouça
Fui pedir às almas santas (Interpretação: Clamentina de Jesus; composição: domínio público)

Pot-pourri (Interpretação: Elis Regina e Jair Rodrigues, no álbum Dois Na Bossa – 1965) O Morro não tem vez (Composição: Tom Jobim, Vinícius De Moraes); Esse mundo é meu (Composição: Sergio Ricardo, Ruy Guerra); Feio não é bonito (Composição: Carlos Lyra, Gianfrancesco Guarnieri)

O colono e o fazendeiro (Interpretação: Prof. Pedro Mello; autora: Carolina Maria de Jesus)

Saudosa maloca (Interpretação: Por João Bosco; composição: Adoniran Barbosa)

Santo e orixá (Interpretação: Glória Bonfim; composição: Pedro Cesar Pinheiro)

 29 de maio (Performance: Karina Caetano; autora: Carolina Maria de Jesus, na obra Quarto de despejo)

O Pobre e o rico (Interpretação e composição: Carolina Maria de Jesus)

Rap Da Felicidade (Interpretação: Mc Cidinho e Doca; composição: Julinho Rasta e Kátia)

Alma não tem cor (Interpretação: Chico Cezar; Composição: André Abujamra)

28 De Maio (Performance: Fernando Zorzal; autora Carolina Maria de Jesus, na obra Quarto de despejo)

Despejo na favela (Interpretação e composição: Adoniran Barbosa)

13 De Maio (Performance: Juliano Rabujah; autora: Carolina Maria de Jesus, na obra Quarto de despejo)

Haiti (Interpretação: Caetano Velozo; composição: Caetano Veloso E Gilberto Gil)

Carne (Interpretação: Farofa Composição: Marcelo Yuka, Seu Jorge E Wilson Cappellette)

Vedete da favela - (Interpretação e composição: Carolina Maria De Jesus)

Estatuinha (Interpretação e composição: Edu Lobo)

Sobre Todas As Coisas (Interpretação e composição: Gilberto Gil

19 De Maio - Quarto De Despejo (Performance:Aline Maria, karina Caetano e Juliano Rabujah; autora: Carolina Maria de Jesus, na obra Quarto de despejo)

Maria Três Filhos (Interpretação e composição: Milton Nascimento)

Trecho De Quarto De Despejo (Performance: Ruth De Souza; autoria: Carolina Maria De Jesus)

Poema da obra Antologia Poética, p. 174 (Performance: Aline Maria; autora: Carolina Maria de Jesus)
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Locução: Aline Maria e Fernando Zorzal, Produção de áudio: Juliano Rabujah, Design gráfico: Elvira Broetto, Imagens: Iuri Galindo, Revisora de linguagem: Luana Mattos, Mediadora escolar: Duana Peixoto, Produção: Jamille Ghil e Karina Caetano, Coordenação: Prof. Jorge Luiz do Nascimento.